Ensaio sobre o pecado

Pecado é haver tantas crianças sem pai nem mãe,
vagando pelas ruas, nuas de afeto
cheirando cola, vivendo de vento
limpando o parabrisa, vivendo de brisa
cheirando cola, dormindo no asfalto
morrendo no asfalto
morrendo de cola, morrendo de fome
com fome de cola, com fome de mãe
com fome de pai
vendendo drops, cheirando cola
dormindo na rua, sem pai nem mãe
sem nome, sem teto, sem chão
dormindo no chão, pedindo um pedaço de pão
pra matar a fome, pra comprar a cola
fugindo da escola
dormindo na calçada, morando na rua
vendo a vida passar
no parabrisa
a vida acabar no asfalto
morrer na calçada
cheirando cola
passando fome
cheirando gente
sem nome, sem pão
sem pai

(Escrito por Zailda Coirano)

Abstrato

O riso leve no rosto marcado
abstrato
a perna da moça no banco do metrô
o olhar do padeiro na fila do avião
abstrato

Sigo a vida sem entender nada
o prédio onde moro
de paredes cinza
onde tenho um vizinho que vejo aos domingos
abstrato

A promessa de amor
que morre na fila do metrô
o emprego marcado de hora regrada
o salário minguado
abstrato

A vela do crente
a oração do infiel
a jura do amante
a perna da moça no rosto marcado
que morre na parede cinza do meu vizinho
abstrato

A vida corre, foge entre os dedos
não entendo mais nada
perco o fôlego e sigo a novela
a fila de velas em oração
na mão estendida do mendigo
na bala do revólver do ladrão
na rua cinza e o salário minguado
abstrato

Na soleira da porta
a perna do mendigo
o sorriso da moça
a bala do vizinho
perco a novela e sigo a oração
um corpo estendido
na hora marcada
abstrato

(escrito por Zailda Mendes)

Vida bandida

Vida, essa vida bandida
vida atropelada, corrida
que nos faz deixar pra trás
amigos, amores
esquecer de olhar as estrelas
de abraçar os filhos
de olhar nos olhos
que nos transforma em seres sem alma
sem espiritualidade
sem tempo pra nada
pra tomar uma cerveja com os amigos
bater papo no fim de tarde
ler um livro
ouvir uma piada
lembrar o nome do ator de um filme
entre risadas
sem tempo pra tomar sorvete
banho de chuva
comer algodão-doce
dar muita gargalhada
contar as histórias
deixar nossas marcas
abrir o coração
chorar nossas mágoas
nossas pequenas tragédias
Um dia essa vida bandida
se vai, se escoa, se acaba
e nós vamos de mãos vazias
deixamos um grande nada
nos libertamos da prisão.

(escrito por Zailda Mendes)