Criatura

Ainda arde na face o bofetão que destes
ainda agoniza o seio onde cravastes o punhal
mas lançam teu castigo os anjos celestes
te dei amor e me pagastes com o mal

Ignorastes meu clamor queixoso
ofuscastes a beleza de um amor tardio
arrancastes, de um só golpe poderoso
e deixastes apenas um coração vazio.

Afogastes a lágrima em lúgubre veneno
e devolvestes apenas teu coração pequeno
enlameastes meu sonho de doce ternura.

Carregas na alma o castigo pleno
e hás de padecê-lo, agora te condeno
lambe o chão onde rastejas, pérfida criatura.

(Escrito por Zailda Coirano)

Neblina

Neblina insana baixa sobre a noite
que se fez mais cedo na tua ausência
vem sobre o meu peito como açoite
e a tempestade cai na alma sem clemência

Noite extrema que clama em furor
estupor de pranto lavado em brisa
chaga que arde no meu céu sem cor
se instala em meu peito que agoniza

Oh, ausência atroz e amargurada
vazio que me entorpece em ais
me deixa a vagar pela madrugada
bebendo na luz profana dos mortais

Olhar vazio, lágrima torrente
a espera insana finalmente exala
último suspiro de chama latente
a esperança, abandonada, estala

(escrito por Zailda Mendes)

Loucura

A gargalhada louca
escorre da boca
o cérebro desfalece
adormece
as imagens se sobrepõem
em vertiginosa viagem
de cores e dores
insuportáveis
medonhas, desumanas
monstros brancos que aos poucos
invadem todos os lugares
e mente já não suporta
e se desmancha em luzes
e a gargalhada rasga a noite
entra pelas frestas das janelas
a loucura irrompe, indomável
e assim fenece, adormece
no peito do louco
o último fio de lucidez

(escrito por Zailda Mendes)

Dor insana

Onde repouso o olhar embaciado
turvado pelas brumas da tristeza
que goteja, incessante,
que escorre lentamente
pelos poros de minh’alma,
embalada em suspiros de agonia
que exalam de meu coração?

Onde encosto as pernas bambas
da inútil caminhada
em busca dos teus olhos?
Onde descanso a carcaça,
os ossos – destroços
do gélido cansaço,
de palpável e lúgubre centelha
de dor inerte e insana?

Onde deixo os beijos – abortos -
destinados aos teus lábios?
Agora se enroscam – luzidias serpentes -
amarfanhando-se em meu peito
inundado em charcos de lágrimas cruas,
que borbulham em fontes de fel?

Onde encosto o soluço
das mil noites insones
das tresloucadas madrugadas
de prantos errantes
da chaga colossal de dor pungente
queimando lânguida, envolvente,
despojando a alma errante e triste
desfazendo-se em laços, pedaços,
esquartejando meu ser
até, enfim, voar liberto
em busca do alívio incerto
descansar, repousar, fenecer…

(escrito por Zailda Mendes)