Como eu te amo

Te amo
com a pureza das crianças
a grandeza da luz do sol
a certeza do amanhã
a força da tempestade
a urgência dos desgarrados
o desespero das almas malditas
a agonia do pio da coruja
a pressa dos amantes

Te quero
com a pureza dos errantes
a grandeza do amanhã
a certeza da tempestade
a urgência da saudade
a agonia das crianças
a pressa dos desvalidos
a força dos amantes
o desespero do pio da coruja

Te espero
com a urgência da tempestade
a certeza da verdade
a inocência dos aflitos
a força das almas malditas
a pureza do pio da coruja
o desespero das manhãs
a grandeza das crianças
a pressa dos desgarrados.

(escrito por Zailda Coirano)

A vida continua

A vida continua
que importa o vazio
que importa o nada
que importa o desamor
que importa a dor
que importa o fim dos sonhos
o fim do amor
o fim da alegria
o fim da quimera
adeus à felicidade
adeus à vida
adeus à música
o importante é seguir
sem saber pra onde
seguir em frente
seguir, seguir enfim
até tombar de repente
parar para sempre
abandonar o corpo
voar pra eternidade
e a vida continua

(escrito por Zailda Mendes)

Borboleta

Borboleta rubra
no céu de outono
detém seu voar
me leva em tuas asas
pra longe, bem longe
me leva pro mar
nas águas salgadas
flutuar, afundar
nascer, renascer
nas águas morrer
desaparecer

(escrito por Zailda Mendes)

Coração

Meu coração bate
junto ao teu, descompassado
tarado
pecado
domado

Minha boca busca
a tua, carente
doente
latente
fulgente

meu olhar cai
no teu, dorido
sentido
bandido
caído

Meu corpo se enrosca
ao teu, desperto
aberto
incerto
esperto

Meu hálito suga
o teu, agonia
ironia
fugidia
fantasia

(Zailda Mendes)

Noite

Noite, vem depressa,
traz contigo o sono
galopando na madrugada,
habita meu pesadelo
adormece meu âmago
congela o tempo
desfalece o dia
escorre pela manhã
me empana a vista
emudece a lágrima
me arrebata do sonho
e me leva contigo
pro esquecimento
bálsamo das dores
descanso final

(escrito por Zailda Mendes)

Nunca mais

Nunca mais quero dizer
“eu te amo”
nunca mais quero entregar
o coração
pra ser esquartejado, enxovalhado
recolho os pedaços
sinto a dor funda
trespassando a carne
olho o horizonte
onde o nada se apresenta
enorme, colossal
sigo a estrada
que vai dar em nada
que segue pra lugar nenhum
onde brilha o sol sem cor
sem calor
esqueço as canções enquanto sigo
os sonhos vão caindo de meu peito
piso em esperanças vãs
como margaridas
desfalecidas pelo caminho
abandono o brilho do olhar
a tristeza me sobrevoa
não olho pra trás
o coração se transforma aos poucos
em pedra, em gelo
em espinho, em punhal
e repito enquanto morro aos poucos
“nunca mais, nunca mais”

(escrito por Zailda Mendes)

Loucura

A gargalhada louca
escorre da boca
o cérebro desfalece
adormece
as imagens se sobrepõem
em vertiginosa viagem
de cores e dores
insuportáveis
medonhas, desumanas
monstros brancos que aos poucos
invadem todos os lugares
e mente já não suporta
e se desmancha em luzes
e a gargalhada rasga a noite
entra pelas frestas das janelas
a loucura irrompe, indomável
e assim fenece, adormece
no peito do louco
o último fio de lucidez

(escrito por Zailda Mendes)

Ama

Ama, ama muito
mesmo que te doa o coração
e que rompam os soluços
ama sempre
mesmo que te dilacere a carne
e que jorre o sangue
ama incontrolavelmente
ainda que o peito arfe de dor
e brote em lágrimas frias
ama ainda
mesmo que não sejas amado
e te torture o ciúme
como lança fria no peito
ainda assim segue amando
até se a vida te escoa
em suspiros de saudade
ama, ama muito, ama sempre
porque a vida assim sem amar
é vida vazia
vida oca, sem destino
sem descanso, sem rumo
viver sem amar é apenas vegetar

(escrito por Zailda Mendes)

Moça na janela

A moça na janela do trem
rosto na vidraça, olhar no nada
lágrima no peito
janela do trem

A moça e o trem passam voando
o trem leva a moça
a moça leva a saudade
solidão é pra quem fica
adeus é pra quem parte
na lágrima da janela do trem

O coração bate apertado
a moça no trem chora o mundo
de lágrimas que não chorei
que engoli
que não sei contar,
não sei dizer

A moça e eu no trem
o trem corre e me deixa aqui
olhando a moça na janela
coração partido, olhar vazio
lágrima da moça do trem

A janela se apaga da memória
o trem entra na bruma
sua história
se perde, se confunde
só fica a lágrima
a lágrima e a moça
que parte na janela do trem

(escrito por Zailda Mendes)

Meu

Cavalgo tua noite, teu corpo
velo teu sono
abandono
meu peito à ânsia do prazer
escalo teus montes, teu centro
me cedo e me nego,
me entrego
velejo teus suspiros e gemidos
bebo tua água, tua boca
te tomo e te abraço
enlaço
meu corpo ardente ao teu
te juro loucuras, meus ais
revivo e desfaleço
esqueço
que na ânsia de ser
completamente, perdidamente tua
te quero apenas meu.

(escrito por Zailda Mendes)

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